Seattle recebe nesta fase de oitavas de final um dos duelos mais aguardados desta Copa do Mundo: os Estados Unidos, anfitriões do torneio, contra uma Bélgica experiente e acostumada a bater o adversário americano. Para Mauricio Pochettino, o objetivo é claro - avançar às quartas pela apenas segunda vez na história do futebol norte-americano e manter viva a chama de uma geração que ainda não chegou ao seu limite.
A campanha dos EUA até aqui impressiona pelo volume e pela eficiência. Desde a vitória sobre o Paraguai na estreia, a seleção de Pochettino marcou ao menos dois gols em cada partida, tornando-se a primeira equipe não europeia e não sul-americana a conseguir esse feito em quatro jogos consecutivos de Copa do Mundo. No último compromisso, a goleada sobre a Bósnia-Herzegovina por 2 a 0 consolidou a liderança do Grupo D. Vale lembrar que o futebol europeu também vive um período de grandes transformações nos seus gigantes - como se pode acompanhar na análise sobre como United, City, Liverpool e Chelsea trocam de técnico -, mas aqui a atenção está voltada para o palco americano e seus novos protagonistas.
Balogun liberado: o artilheiro volta a liderar o ataque
A grande notícia para os anfitriões foi a suspensão do gancho de Folarin Balogun pela FIFA. O centroavante recebeu cartão vermelho diante da Bósnia após marcar, tornando-se apenas o quarto jogador da história a balançar as redes e ser expulso na mesma partida de fase eliminatória de uma Copa do Mundo - companhia nada desprezível: Zinedine Zidane (final de 2006), Ronaldinho (quartas de 2002) e Garrincha (semifinal de 1962). A entidade decidiu suspender a punição por um período probatório de um ano, e Balogun está liberado para jogar.
Os números justificam todo o alívio no campo americano. Com três gols em 11 finalizações - taxa de conversão de 27,3% -, Balogun contrasta com os demais jogadores dos EUA, que somaram cinco gols em 41 tentativas combinadas (12,2%). É apenas o terceiro americano a marcar ao menos três gols numa mesma edição da Copa, depois de Bert Patenaude, que fez quatro em 1930, e Landon Donovan, com três em 2010. Sua ausência teria sido um problema real.
O setor de bola parada também merece atenção. Dos oito gols americanos no torneio, quatro saíram de situações de bola parada, incluindo o belo chute livre de Malik Tillman contra a Bósnia - apenas o segundo gol de falta direta dos EUA em toda a história das Copas. Desde que Eric Wynalda marcou aquele memorável gol de falta contra a Suíça, em 1994, o futebol americano percorreu um longo caminho. Com três vitórias em quatro jogos - o melhor desempenho em uma única edição -, mais uma classifica os EUA para um duelo com Portugal ou Espanha.
A última dança de uma geração belga em crise
Do outro lado, a Bélgica chega a Seattle aliviada, mas com cicatrizes. Rudi Garcia conduziu os Diabos Vermelhos à classificação sobre Senegal de maneira dramática: dois gols abaixo, com o tempo se esgotando, Lukaku diminuiu como substituto no intervalo e o capitão Youri Tielemans igualou - os dois gols em apenas 159 segundos. Já na prorrogação, Tielemans converteu uma penalidade nos acréscimos aos 124 minutos e 44 segundos, o gol mais tardio registrado na história das Copas do Mundo, para selar a classificação. Foi a primeira equipe a avançar em mata-mata após estar dois gols abaixo desde... a própria Bélgica, em 2018.
Kevin De Bruyne, símbolo da geração dourada belga, foi substituído em todas as quatro partidas. Havia cumprido os 90 minutos nos 13 jogos anteriores pela seleção em Copas. Sua saída precoce aos 56 minutos contra o Senegal, ao lado de Jérémy Doku, levantou dúvidas sobre a condição física e tática do grupo. Lukaku, por sua vez, segue em fase de recuperação de forma, e seu rendimento será determinante para as aspirações belgas.
O nome que equilibra a equipe é Leandro Trossard. O meia-atacante acumula 16 chances criadas a partir do jogo aberto neste torneio - o segundo maior volume entre os três últimos Mundiais, só inferior às 17 de Lionel Messi em 2022, e recorde histórico para um jogador belga numa Copa. Os americanos sabem que precisam neutralizá-lo.
Histórico desfavorável e equilíbrio nas projeções
Os números do confronto direto pesam contra os anfitriões. Depois da vitória por 3 a 0 na Copa de 1930, os EUA não bateram mais a Bélgica: são seis derrotas seguidas, com média de 2,5 gols sofridos por jogo. O encontro mais recente, um amistoso em março, terminou em goleada de 5 a 2 em favor dos belgas, jogando no próprio território americano.
As simulações computacionais do Opta, baseadas em 25 mil cenários, apontam um equilíbrio notável: 37,2% de chance de vitória dos EUA nos 90 minutos, contra 36,5% para a Bélgica no mesmo período. A probabilidade de prorrogação - e eventual disputa de pênaltis - é de 26,3%. O histórico sugere cautela para os anfitriões; a forma recente e o fator casa apontam na direção oposta. Em Seattle, o futebol decidirá.